A Vida Mística e Carismática de um Adolescente: Por Dom Bosco

Escrito em 31/01/2022
Pe. Leandro Couto

[…] Poderia também chamar-se extraordinária a robusteza na sua fé, a firmeza da sua esperança, a inflamada caridade e a perseverança no bem até o último alento. Aqui, porém, quero expor certas graças especiais e alguns fatos fora do comum, que talvez venham a ser alvos de alguma clítica. Por isso julgo bem prevenir o leitor, de que tudo aquilo que vou contar tem plena semelhança com fatos registrados na Bíblia e na vida dos santos; refiro coisas que vi com os meus próprios olhos, e garanto que escrevo escrupulosamente a verdade, confiando inteiramente na ponderação do discreto leitor[1]: eis os fatos.

Êxtase Eucarístico

Muitas vezes ao ir à igreja, especialmente quando fazia a santa comunhão ou estava exposto o SS. Sacramento, Domingos ficava como que arrebatado em êxtases; e a tal ponto que deixava transcorrer muito tempo até, se não o chamassem para cumprir os seus deveres ordinários.

Um dia sucedeu que faltou à refeição da manhã, à aula e al almoço, e ninguém sabia onde estava; no salão de estudo não estava, na cama também não. Contaram o caso ao Diretor, e este logo imaginou o que de fato acontecia, que estivesse na igreja, como já de outras vezes se dera. Entra na igreja, dirige-se ao coro e lá o encontra firme como uma rocha.

Tinha um pé sobre o outro, uma das mãos sobre a estante do antifonário, a outra sobre o peito, e o rosto voltado para o sacrário. Não movia as pálpebras. Chamado, não respondeu. O Diretor então sacode-o, e então Domingos fita-o e diz:

– Já acabou a missa?

– Olha, respondeu o Diretor, mostrando-lhe o relógio, são duas horas.

Domingos pediu humildemente perdão de haver transgredido o regulamento da casa, e o Diretor, mandou-o almoçar, dizendo-lhe:

– Se alguém te perguntar onde estiveste, dize-lhe que estiveste a cumprir uma ordem minha.

Isso para evitar perguntas impertinentes, que os companheiros poderiam fazer.

De outra feita, tendo terminado a minha ação de graças depois da missa, estava para sair da sacristia, quando ouvi no coro uma voz de uma pessoa que estivesse a discutir. Fui ver e encontrei Domingos que falava e depois calava como à espera de uma resposta. Entre outras coisas ouvia claramente estas palavras:

– Sim, meu Deus, já vos disse e vo-lo digo de novo: amo-vos e quero amar-vos até à morte. Se virdes que vos hei-de ofender, envia-me a morte: sim, antes a morrer que o pecado.[2]

Perguntei-lhe algumas vezes que fazia quando assim se demorava na igreja, e ele com toda simplicidade respondia:

— Pobre de mim, vem-me uma distração, e naquele momento perco o fio das orações, e parece-me ver coisas tão belas que as horas fogem sem que eu dê por isso.

… Um dia perguntei a Sávio como tinha podido saber da existência daquele doente. Olhou-me tristemente e pôs-se a chorar. Não lhe fiz mais nenhuma pergunta.

A inocência da sua vida, o amor para com Deus, o desejo das coisas celestes, tinham levado a mente de Domingos a tal estado de santidade, que podia dizer-se estar sempre absorto em Deus.

… Estes êxtases tinha-os no estudo, à ida e a volta da aula, e na própria aula.[3]

(ed. Caviglia, 53-55)

Fonte: Escritos Espirituais de São João Bosco. Cord. Joseph Aubry. Tradução do P. Fausto Santana Catarina SDB. Ed. Salesiana Dom Bosco. p. 137-139.

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[1] Demos toda a atenção a este fato: Dom Bosco, mestre espiritual, conduziu algumas almas pelas vias místicas. Tarefa delicadíssima tratando-se de adolescentes! Ao escrever este capitulo, sabe o risco de suscitar reações de ceticismo. Assim adverte: “garanto que escrevo escrupulosamente a verdade” … e convida o leitor a refletir. Podemos confiar em Dom Bosco, refletir deveras na extraordinária complacência de Deus para com um menino de 14 anos: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças por que escondestes estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelastes aos pequenos. Sim, bendigo-te porque assim foi do teu agrado. (Lc 10,21)

[2] É comovente verificar que a vida mística de Domingos é o primeiro resultado do caminho em que se colocou a partir da primeira comunhão. O amor de Jesus, e a correspondente recusa de tudo o que se lhe opõe, apossou-se dele a ponto de atraí-lo cada vez mais a esses misteriosos diálogos. Empregando uma linguagem humana, poderíamos dizer: Deus não receia perder seu tempo com um adolescente tão importante e precioso aos seus olhos como um sisudo cônego ou um Presidente da república.

Em continuação Dom Bosco apresenta outro gênero de fatos: Domingos foi agraciado com carismas de revelação, profecia e milagre. Uma noite, leva Dom Bosco a um moribundo desconhecido; prevê a renovação católica da Inglaterra; sabe a respeito de sua morte. No fim do capitulo, Dom Bosco Afirma: “Omito muitos outros fatos semelhantes”. Os documentos do processo referem também o episódio da viagem a Mondônio para curar a mãe que estava para dar a Luz a pequena Catarina (Cf. Caviglia, Studio, pp. 426-432).

[3] Trata-se provavelmente dos últimos meses de sua vida. No outono de 1856 recomeçara as aulas na cidade com o P. Picco. E Dom Bosco afirma que os meses de maio e junho de 1856 (mês de maria, fundação da companhia, doenças) haviam marcado uma nova etapa no fervor de Domingos.